Burn your boats

Se eu disser que deveria escrever mais não chegarei a lugar algum. Assumir um compromisso não começa com deveria, mas sim com algo certo, uma determinação que irá nos fazer honrar tal compromisso. Eu não deveria escrever mais, eu vou escrever mais.

A pouco li sobre a expressão “burn your boats”. A origem disso vem de um preceito guerreiro no qual, ao desembarcar em uma nova terra, os guerreiros queimavam seus barcos a fim de ter uma escolha somente: lutar e conquistar. Ou a alternativa, que seria morrer fazendo isso. Essa é a determinação que se deve ter. Obviamente que não é necessário morrer tentando conquistar, mas no sentido de que as nossas decisões não devem nos deixar escolhas. Outra expressão seria “manter um pé em cada canoa”. Não é possível seguir a vida assim, eventualmente as ditas canoas acabam derivando em direções diferentes e se cai na água, ficando com nenhuma canoa.

Nos tempos modernos, atuais, temos muito mais dificuldade em deixar de fazer o que fazemos para perseguir algum desejo ou paixão. O incentivo para a mudança é bastante pequeno. A defesa do status quo é gigantesca. E só nos damos conta de que a mudança é necessária quando não há mais margem para manter-se como está. Aproveitando o texto já cheio de metáforas, “quando a água bate na bunda”. E ainda assim continuamos usamos subterfúgios para mascarar os sintomas de que não é mais possível manter a vida que se leva. A ansiedade é combatida com remédios ou práticas para desviar a mente do verdadeiro problema, frente à infelicidade temos todas as opções de entretenimento disponíveis, contra o vazio interior podemos nos encher de compras e consumo. E com isso nos tornamos cheios, sem tempo mais para sentir que algo está errado e que devemos mudar.

Quando nos estabelecemos e encontramos situações confortáveis em nossa vida paramos de questionar o que nos incomoda. Ultrapassar os 50% para o lado do conforto na balança leva a um sentimento de sucesso em nosso cérebro. E assim entramos em uma zona de conforto que, quanto mais tempo demorar a ser questionada, mais enraizada estará, e por consequência mais difícil ainda será de livrar-se dela. Ficamos estacionados naquele padrão logo acima do desconforto e que não nos possibilita ir além.

Descubra quem você é e o que você mais deseja para a sua vida. Com esse conhecimento em mãos compare com como é hoje. E vá atrás desse desejo.

Maturação

Por vezes o único refúgio que temos é nossa própria mente. Não convém compartilhar alguns pensamentos, principalmente quando ainda não encontram-se prontos para debutarem. Em outros momentos alguns deles precisam ver a luz do dia, mas somente do fundo de suas cavernas. Imaturos, estes podem gerar mais conflito e confusão do que solução ou evolução.

Particularmente utilizo a estratégia de falar sozinho. Assim permito que os tais pensamentos possam ver a luz do dia mas ainda os mantenho protegidos em seus casulos, em formação.

E é assim que me encontro. Com a falta de foco acabo gerando muitos pensamentos, mas pouquíssimos chegam a ter alguma maturidade para poderem vir ao mundo, e menos ainda chegam próximos de debutar. A maioria é obrigado a ficar incompleto em sua concha, aguardando a sua vez de ser desenvolvido.

Baleias

Passei os últimos dias em viagem, a fim de fazer um curso. O curso em si não vem ao caso, mas sim o retorno deste. Foi uma semana bastante intensa, fisicamente desgastante e mentalmente extenuante. Após o último dia de aulas, que terminaram no começo da tarde, tomei o rumo de volta para minha casa. Como já me encontrava bastante cansado a estrada mostrou-se ainda mais cansativa.

Onde moro hoje tenho acesso à natureza o tempo todo. A vista de montanhas, o som do mar, a própria praia disponível a qualquer momento. No entanto durante os dias de curso me vi em um ambiente completamente diferente. Estive dentro da cidade novamente, cercado de industrias, prédios, carros e muitos caminhões. A estrada não foi diferente. Conforme me aproximava do meu destino ia pensando em como não seria bom chegar e ter novamente esse contato com toda essa abundância de natureza. Como eu estava grato pela oportunidade que tive de participar do curso mas ao mesmo tempo estava muito feliz de retornar para minha casa e toda essa natureza que a cerca.

Quando estava bastante próximo de casa liguei para minha esposa, para saber onde poderia encontrá-la. Ao que ela me disse: “venha nos buscar e vamos na praia, tem baleias!!”. Não tive sequer tempo de ponderar se estava cansado demais para fazer isso, segui o impulso da empolgação dela e fui.

Paramos próximo à praia e caminhos até a areia. Qual não foi minha surpresa ao ver logo depois da arrebentação aquele animal enorme saindo da água. A primeira baleia que vi somente passou com o dorso pela superfície e soltou seu jato. A segunda subiu a tona e colocou a cabeça toda para fora da água. Meu corpo inteiro relaxou. Ainda sentia o cansaço dos últimos dias, mas toda a tensão sumiu.

Era isso. Eu havia acabado de agradecer por poder estar tão perto desse lugar e em resposta recebi esta visita como presente. Não que seja incomum a visita de baleias por aqui nesta época do ano, mas até então não havia tido a oportunidade de vê-las. Mas era isso que eu precisava depois de uma semana intensa e distante de tudo o que amo. Chegar e ser recebido pela natureza, em uma manifestação tão intensa como essa.

Foram alguns minutos somente que fiquei com minha esposa e meus filhos na praia admirando as baleias. Estar abraçado ao meu filho enquanto este debruçava-se no guarda corpo da passarela, sentir minha esposa com minha filha encostadas ao meu lado. E aquele espetáculo acontecendo na nossa frente. Mais nada. Isso era tudo o que existia e precisava existir naquele momento.

Normalmente eu levaria vários dias para recuperar desse tempo intenso do curso. Dessa vez foram poucas horas e já estava sentido-me novo. A cabeça cheia de novas ideias que foram surgindo durante os últimos dias e o espírito cheio da graça que é estar aqui. São momentos como esse que me dão força e energia para enfrentar os desafios que me são colocados diariamente. Relacionar-se não é fácil. Criar filhos não é fácil. Estar vivo não é fácil. Mas tudo isso pode ser cheio de muita beleza, que só precisamos estar presentes para enxergar.

Naquele momento eu estava presente. Totalmente presente, não havia mais nada no mundo. Somente nós, ali. Vivendo.

Angustia

A angustia de estar angustiado. Mas o que diabos é isso? O que é estar angustiado, o que é ficar angustiado com essa angustia? É ansiedade? É medo, desespero? Para mim é uma inquietude da alma. Não da mente, esta é a ansiedade. Nem do corpo, este é o medo. Mas sim da alma. Quando a alma clama por algo e não damos ouvidos ou não respondemos, a angustia instala-se. A alma não está aqui somente para animar o corpo, mas para buscar as suas próprias experiências, vivendo em nossos corpos. É como se a vida fosse a experiência humana da alma, a forma que ela tem de viver o que precisa viver para chegar onde quer que seja que precise chegar.

Mas ainda assim, o que fazer com a angustia quando esta começa a dar seus sinais? Não sei o que vai funcionar para cada um, mas sei o que funciona para mim. E nem sempre é a mesma coisa, então também é necessário testar e comprovar.

A primeira atitude quando percebo esse “sentimento” chegando é respirar. Alinhar o corpo e respirar. Muitas vezes vai embora sem nem mesmo ter chego por completo. Outras vezes essa atitude ajude que ele chegue mais suave, mas não deixe de chegar. Quando este é o caso, valho-me de alguns outros caminhos. Meditar, exercitar-me, conversar com minha esposa, escrever, caminhar.

Em geral, se algo não acalma a sensação é por não ser o que a alma precisa no momento. Se não der certo, tento outra. Se não der certo, pare e escute o que a alma está precisando. Quando silenciamos a mente suficientemente conseguimos escutar com clareza os desejos mais pungentes da alma. Por isso aquilo que listei funciona para mim, são silenciadores da mente. Eles não resolvem nada, mas me dão a oportunidade de ouvir o que é preciso ouvir.

Demanda

Houve um tempo em que eu não pensava no que iria consumir. Houve um tempo onde eu achava que minhas escolhas não tinham tanta importância, visto que a oferta já estava ali de qualquer forma. O que eu escolhia e consumia não tinha grande significado, uma vez que a ordem era dada pela oferta.

Então entendi que a oferta somente existe quando a demanda existe. Sem problemas, enquanto a demanda existir, haverá a oferta, então minhas escolhas continuam não influindo em nada. Consumi sem pensar e sem criticar-me. Não estava fazendo diferente dos outros, então meus atos não tinham de fato uma grande significância.

Mas a demanda não é algo que existe independente daqueles que consomem. Ela é feita por aqueles que consomem. Logo, a demanda é criada pelas escolhas individuais de cada um que consome. Minhas escolhas fazem a diferença.

Então veio o remorso. Como pude ser tão obtuso e não ter enxergado isso. É uma lei básica de funcionamento do mundo. Tudo que fiz somente contribuiu de maneira negativa, contra tudo em que eu acreditava. Eu destrui, mesmo sem jamais ter levado diretamente a devastação para o mundo.

As consequências de nossas escolhas são nossas para carregar pelo resto de nossas vidas, mas nada podemos fazer para mudar uma escolha feita. Nem mesmo podemos mudar escolhas que ainda não aconteceram. Temos somente um momento para escolher diferente, o agora. Se quero um determinado resultado somente os meus atos presentes é que podem me levar à ele.

Passei a escolher minhas ações. Não é mais o fluxo geral que manda nas minhas escolhas, mas sim as minhas projeções do que quero para o meu próprio futuro. Este é o meu guia, não o que a mesa ao lado escolheu.

Você escolhe as suas ações? Quantas vezes escolheu fazer exatamente o que está fazendo agora? E como as suas ações impactam no seu futuro, você sabe? Muitos querem aposentar-se e relaxar, mas quantos agem agora para que isso aconteça? Você quer viver mais e melhor, assim como eu. Mas o que você faz para isso? Eu não fazia nada, até perceber que continuando no caminho em que estava não chegaria onde queria. Se continuar no caminho em que está, você vai chegar onde quer?

Parada

Por vezes é preciso parar para reavaliar. O que quer que seja, todo e qualquer elemento de nossas vidas carece de crítica construtiva de tempos em tempos. Mas de dentro do furacão é quase impossível saber seu tamanho exato. Para tanto, faz-se necessário criar distância do objeto de crítica para melhor poder enxergar-lo em toda a sua amplitude e como este interage com o restante do meio.

“Mas eu não consigo parar”. Essa foi a desculpa que sempre dei à mim mesmo neste assunto. E assim, não parava. Até que a vida chegou em um ponto de inflexão tão grande que não era mais possível protelar. A escolha seria parar e rever tudo ou continuar e dar sequência no desmantelamento da saúde física, mental e emocional. Foi uma não escolha.

Então parei e comecei a olhar para a minha vida e meus caminhos, tanto aquele que já havia trilhado como aqueles que ainda estava por percorrer. E algumas opções eram tão incongruentes para com as demais que haviam tornado a existência insustentável. Por isso mesmo eu me encontrava em processo de degradação. Mas só quando parei e critiquei minhas escolhas foi que pude enxergar quanto estava vivendo em contradição comigo. E isso foi um alívio.

Como sempre ocorre, nem tudo são flores. Neste processo descobri em mim muito que não conhecia e tomei decisões que até hoje ainda questiono. Talvez por terem sido erradas ou talvez por que o prazo para que tenham seu verdadeiro efeito ainda não tenha-se cumprido.

Vício

Não importa para onde olhe, sempre vai haver a tentação de não fazer o que precisa ser feito. Temos essa tentação nos nossos bolsos o dia todo. Dezenas, centenas de aplicativos que foram desenhados para tomar nosso tempo e atenção com retorno quase nulo. Talvez a ocasional dose de serotonina com uma pequena recompensa, mas somente o suficiente para nos manter presos na mesma roda, buscando uma nova microdose para satisfazer nossos cérebros viciados em prazer.

E nem me fale sobre todas as tarefas e atividades que inventamos e colocamos como prioridade em nossas vidas. Enchemos a casa de coisas que depois nos tomam o tempo de manter as coisas. Trabalhamos para comprar as coisas para depois trabalhar para as coisas, mas sem deixar de trabalhar para comprar mais coisas. E depois não temos tempo de manter todas as coisas e trabalhar, então brigamos com nossos parceiros que não estão trabalhando o suficiente para manter as coisas que trabalhamos para ter. No final do dia, trabalhamos para trabalhar mais e achamos que a dose de serotonina das recompensas virtuais, já não é mais suficiente, e assim nos frustramos, somente para dormir mal e acordar cedo e trabalhar novamente. Entenda, o cérebro tem a tendência de apagar os tempos ruins e se agarrar aos bons. Ele não vai lembrar-se do cansaço do dia anterior pela falta de objetividade e significado em tudo o que se fez, só vai lembrar da pequena dose de prazer que teve ao final do dia, e assim não irá questionar tudo o que levou até ela, vai focar em obtê—la novamente, tal qual um viciado em qualquer tipo de droga, que não vê a hora do momento de usá-la chegue, e quando não chega, ele se permite criar esse momento. É o que o cérebro faz quando puxamos o telefone do bolso nos momentos mais inoportunos para buscar aquela dose mínima de satisfação.

“Mas o que fazer? Sou um viciado nisso. E que mal tem, todos somos hoje em dia, não?”. Aparentemente sim, todos somos. Muito reconhecem que assim o são, poucos buscam lutar contra, e a maioria não estão nem aí. Afinal, os tempos modernos são assim! Mas assim deveriam ser? Acho que não. Tenho certeza que não. Qualquer que seja o criador em que se acredite, desde um deus ou deuses todo(s) poderosos até a causalidade de termos simplesmente acontecido como uma consequência de diversos fatores favoráveis, tenho a certeza de que a zumbificação não era a ideia pretendida. Talvez certo estaria Tyler Durden quando achou que a solução seria implodir o sistema e trazer todos a uma base zero. Reconstruir nos dá a oportunidade de fazer diferente. Ou de fazer igual, se estivermos tão consumidos e viciados.

Mas a radicalidade de destruir a integridade e forçar que todos voltem à estaca zero talvez não seja a solução ideal. As possibilidades são infinitas hoje. Em teoria. É possível escolher até onde se quer deixar ser dominado por tudo a sua volta e ignorar tudo o mais que está reprimido dentro do ser individual. É uma escolha, por mais que não pareça. Ninguém é obrigado a estar presente nas redes sociais. Talvez isso crie alguns atritos, mas sem atrito não saímos do lugar. Vale o experimento. É possível que alguns deles os leve à decisões acertadas e outros a voltar atrás, mas só será possível descobrir quando se tentar.

Certo (Errado)

Sabes o que te faz mal. Mas por que segue?

Questionar somente o que está fora, só o que os outros fazem. Mas e o que você mesmo faz? Não é digno de questionamento? Não importa o quão convicto esteja de suas ações, elas podem lhe levar pelo caminho errado. Ou seria talvez só meio certo. Que seja certo, afinal, o que é certo e o que é errado?

A multiplicidade de respostas para o certo e errado permeia cada atitude. É ensinado para as crianças que existe um certo e um errado. Um de cada. Ou um certo e que o restante é errado. Mas será isso certo? E quando adultos seguimos com a mesma ideia, de que o certo é certo. Exceto quando não mais o é. Então não existe um certo. E por que ensinamos assim para nossas crianças?

Quando temos entendimento da duplicidade (ou multiplicidade) de certos e errados começamos a dançar entre as respostas, e trocar de parceiro para o baile a cada momento, conforme cada um dança melhor o compasso da ocasião. Mas seria isso certo? Ou estaríamos novamente errados.

No fim, de que importa. Estar certo ou errado. Estamos sempre certos e sempre errados.

Grátis

O desejo de consumir é muito grande. Foi incentivado desde muito pequeno. Fazemos tudo o que fazemos para mais consumir. Vivemos mais tempo para consumir mais, não para termos mais experiências. E para viver mais precisamos consumir alguns produtos específicos, claro. Sempre consumir. É a ditadura do consumo. Nos revoltamos quando não podemos consumir mais.

Hoje, tal qual sempre foi, a maior parte das pessoas só consegue ganhar o que precisa para sobreviver, pouco sobrando para qualquer outra coisa. E aparentemente para qualquer coisa que se vai fazer é preciso ter dinheiro e gastar dinheiro. Pensava assim até que minha esposa me abriu os olhos algum tempo atrás. Ir ao parque não custa nada. Nem mesmo combustível, se estiver disposto a caminhar. O próprio caminhar não custa nada. Sentar e olhar o dia terminar, ou mesmo começar, para aqueles que conseguem acordar antes do sol. E para quem não consegue, vale a pena ao menos uma vez na vida colocar o despertador para conseguir ver esse espetáculo que acontece todos os dias, com hora marcada, em praça pública, sem necessidade de contribuição monetária.

Praticamente tudo que acontece à nossa volta não custa nada, financeiramente. Custa o que temos de mais precioso, nosso tempo e atenção. Mas não enxergamos isso sem um estímulo. São tantas chamadas acontecendo o tempo todo e buscando que a nossa opção de tempo e atenção seja dedicado a eles que parece que nada mais existe.

Como exercício em minha própria vida comecei devagar, para provar a mim mesmo que realmente era assim e funcionava. Passei a acordar antes do sol e tomar café assistindo ele subir todos os dias. É um suplício no começo, mas que qualquer um consegue esquecer quando assiste à beleza que é cada dia diferente. Não tem segredo nenhum para começar a fazer isso, só a vontade. Uma dica, comece no verão, pois assim no inverno não será tão mais difícil!

Momento

Enxergar finalmente algo que estava à sua frente e sempre fora visto mas nunca até então produziu nada mais do que uma simples imagem no cérebro. Quando um vislumbre de luz passa pela camada que não lhe permite enxergar e produz uma epifania, uma ideia, um deleite, a iluminação, o que quer que seja, mas que faz com que todas as sinapses brilhem e a química do cérebro altere-se completamente. Por um segundo ou por uma vida, algo muda. Instantaneamente você deixa e passa a sentir algo novo.

Um momento de serenidade ou de ansiedade, a mudança é tão profunda que nunca mais será o mesmo.

Armário

O primeiro desafio autoproposto para começar com o minimalismo foi o meu armário. De longa data já me incomodava com o tamanho do meu armário, apesar de não ser nada comparável com a maioria, mas sentia-me incomodado. A cada vez que acessava essa parte da casa deparava-me com uma fadiga decisória enorme, e recorria sempre às mesmas peças. Então resolvi que seria esta a primeira vítima.

Tirei tudo que tinha dentro dele e vesti todas as roupas. Aquelas que não me cabiam foram automaticamente separadas para doação. Não segurei nada para o dia que tivesse um corpo diferente, até porque não pretendia ter um corpo diferente. Essa parte foi fácil. O segundo passo foi escolher aquelas nas quais sentia-me bem. Essa etapa já foi mais difícil, pois muitas roupas eu havia ganhado de alguém, então eu tinha um certo apego sentimental à elas. Para não ferir este sentimento adotei uma estratégia diferente: separei todas as peças nas quais não me sentia bem, peguei uma velha mala e coloquei dentro. Dei o prazo de três meses para me decidir. Ao final dos três meses não me lembrava mais o que estava dentro da mala, e assim foram todas para doação, mala inclusive. Sequer abri a mala para ver o que tinha dentro, para não correr o risco de ter os mesmos sentimentos de apego ao que não me era útil.

Assim, fiquei com um armário extremamente reduzido. A situação estava controlada. Até uma semana depois, quando ganhei duas camisetas. Eu teria que criar uma regra, não bastava organizar e reduzir para na sequência deixar que tudo perdesse o controle novamente. As duas novas peças me agradavam. Então tirei duas camisetas que já haviam visto dias melhores para a doação. E assim surgiu a regra. Para que uma entrasse, outra teria que sair. O fator de escolha seria que só ficariam aquelas que eram as minhas favoritas, sejam elas novas ou velhas.

Minhas roupas ocupavam 25 cabides e 3 gavetas grandes, bem apertado. No final havia reduzido para 10 cabides e 2 gavetas grandes, com bastante espaço entre tudo para que ventilassem e ficasse fácil de visualizar. Não cheguei a fazer a mesma organização que havia antes, mas tenho certeza de que chegaria a menos da metade do espaço original.

Essa não foi a única vez em que tomei medidas drásticas em meu armário, mas foi a primeira, juntamente com meu primeiro passo para reduzir a quantidade de coisas que haviam dentro da minha casa. Fazer isso trouxe o benefício imediato de facilitar cada vez que eu abria o armário para encontrar o que vestir, afinal eu poderia pegar qualquer roupa visto que todas eram as minhas favoritas e me caiam bem, e a satisfação de ver como era possível fazer a vida como um todo tornar-se mais simples, deixando espaço para o que eu queria dedicar tempo, e não o que me tomava tempo.

Minimalismo

Estava fazendo uma limpeza em meu e-mail quando me deparei com um e-book que me foi enviado alguns anos atrás por um colega de trabalho que estava começando a fazer um movimento diferente em sua vida. Era um livro do Leo Babauta que explicava os conceitos básicos do minimalismo e dava algumas dicas sobre como começar. Um livro pequeno e bastante prático, sem muita enrolação e direto ao ponto. Não cheguei a ler o livro imediatamente, mas lembro-me de tê-lo lido sem muito interesse.

Hoje, quase dez anos depois, posso dizer que implantei uma boa parcela do minimalismo em minha vida. O que não me chamou atenção naquela época surgiu anos depois como uma ferramenta para simplificar a minha conturbada vida. Comecei por outro caminho, familiarizando-me primeiro com as dicas expostas no theminimalists.com, mas eventualmente cheguei até o Leo Babauta novamente e a tantos outros que hoje divulgam este movimento mundo afora.

Isso me provou como as ideias podem chegar para nós em momentos em que talvez ainda não estejamos prontos, mas que se for para abraçarmos algo essa ideia ficará rondando nosso caminho, até que finalmente estaremos prontos para ela.

Minha ideia é colocar em posts futuros partes do caminho que já trilhei e o que ainda pretendo fazer, lembrando que a vida é um trabalho de melhoria contínua, então nunca haverá fim para o que queremos fazer para melhorar nosso meio ou nos tornarmos pessoas melhores!

Alvorada

“Dirige teu olhar para dentro de ti,

E mil regiões encontrarás ali,

Ainda ignotas. Percorre tal via

E mestre serás em tua cosmografia.”

H. D. Thoreau – Walden

Quão oculto é nosso interior? Quanto conhecemos deste terreno tão promissor? Investigamos o ambiente ao nosso redor e apontamos o dedo para tudo que está fora, mas quantos de nós já viu a alvorada de seu próprio ser? Não seria lindo se pudéssemos acordar todos os dias para essa alvorada interna que acompanha a alvorada do mundo? Seria como ver dois sóis nascendo ao mesmo tempo. E por que não?

Quando somos crianças muito do que se passa em nossas vidas acontece principalmente dentro de nós mesmos. Com o tempo, somos puxados para fora deste mundo e obrigados a olhar somente para o que está fora de nós, pois é somente aqui fora que acontece tudo o que vale a pena. É mesmo? E o que acontece com esse mundo interior? Certamente que ele não deixa de existir.

Muitos de nós buscam a felicidade fora deste mundo. Buscamos tudo para nos completar. Gadgets, experiências, prazeres e desprazeres, tudo fora deste mundo pessoal, seguindo as tendências e consumindo, sempre consumindo. Somos constantemente impelidos a consumir algo para só então ter algum benefício, como se o mundo funcionasse assim. Mas não funciona, posso lhe garantir. Percorri um certo caminho para conseguir abrir os olhos e enxergar isso, mas hoje vejo que as relações de troca não são bem como nos vendem. A moeda não é de ouro, mas sim energética.

Mudança

Mudei-me algumas vezes na vida. Com meus pais, sozinho, com amigos, com minha companheira e depois esposa, com ela e meu filho. As primeiras foram fáceis, simples. Com o tempo a quantidade de coisas que eu tinha começou a ficar tão grande que elas passaram a ser muito complexas, e só de pensar em mudar já começava a sentir estafa pelo trabalho que teria. Com 24 anos de idade eu já arrastava comigo muito mais do que eu conseguia carregar.

Depois de algumas mudanças, em nossa última casa, chegamos à um ponto em que começamos a esconder as coisas dentro de armários para não precisarmos lidar com elas. E quando abríamos os armários fazíamos de conta que não víamos a quantidade de coisas que lá estavam esperando para que lidássemos com elas.

Em nossa última mudança precisamos contratar um caminhão para transportar tudo, e estávamos muito incomodados com isso. Então nos demos conta de um ponto crucial: mudaríamos de estado e a tensão da rede elétrica seria diferente. De uma vez fomos obrigados a nos desfazer de praticamente tudo que funcionava ligado na tomada. Aproveitando este embalo, começamos a reavaliar a necessidade de levar os móveis, até chegarmos à seguinte regra: só vale o realmente gostamos e usamos. Não vale só gostar, temos também que usar.

Algumas coisas foram vendidas, mas a maioria foi doada para uma colega que estava mudando-se para começar vida nova e precisava montar sua casa. Montamos a casa para ela com os móveis que não iríamos levar, e ainda assim sobrou muito para ser transportado em nossa própria mudança.

Enxergar isso nos trouxe o questionamento de por que temos tanto? Para que? Com tudo que tínhamos ajudamos uma pessoa a montar a própria casa e ainda sobrou para montarmos a nossa casa! E quando olhamos para os lados e comparamos com o que vemos em outros lugares, nem tínhamos tanto assim, mas já era um absurdo.

Passamos a ser muito mais intencionais com o que trazemos para casa. Se não é algo que precisamos, não passa do portão. Não queremos mais a casa super mobiliada, queremos o espaço para que nossos filhos possam brincar e nós possamos nos expressar. É um luxo que não é um luxo. Não precisamos gastar a mais para isso, precisamos gastar a menos!

Meu pai uma vez me disse “só leve o que você consegue carregar”. É difícil de fazer isso quando estamos de mudança de casa, um desperdício abandonar itens caros somente para comprá-los novamente. Mas o quanto é possível chegar perto desse objetivo? Fiz uma redução drástica de meus pertences pessoais. Estes sim consigo carregá-los todos. Mas o que fazer com o resto todo? Qual é a referência? O que cabe no porta malas do carro? Uma caminhonete? E quando temos família, como fica? É a soma individual?

Continuo sem saber, mas entendi algo ainda mais importante. Ter somente aquilo que me traz alguma satisfação e que tem uso. O restante não é necessário.

Ansiedade

A vista começa a ficar rápida e lenta. Não é mais possível focar. O que as pessoas falam entra pelos ouvidos, mas o cérebro não processa a informação. O poder de decisão foi embora, a compreensão é bastante limitada do que está acontecendo ao redor. Então começa a ficar difícil de respirar. O ar entra e sai pela boca, pois o nariz parece não ser mais do que um adorno à esta altura, mas não enche o peito. É como se ele deixasse de existir e o movimento da respiração passa a ser uma mera resposta muscular inútil.

Neste ponto a ansiedade já está bem instalada, e o desespero começa a tomar conta. A ideia de que isso seja temporário não passa pela cabeça. Somente as sensações ruins preenchem a mente e perpetuam o sentimento. É impossível dizer quanto tempo passa, mas segundos podem parecer horas. A impotência toma conta. Algumas vezes um tema específico vem, outras vezes nenhum, somente a inquietação e a inconsolável vontade de não sentir mais nada. O coração está batendo mais rápido, a respiração está curta, os músculos do corpo inteiro parecem ter contraído-se. E a mente está em uma espiral para baixo que parece não ter fim.

Até que o corpo parece começar a relaxar. A musculatura é a primeira a dar os sinais de que este momento acabou. Depois o coração começa a voltar ao ritmo normal. E a respiração finalmente volta a ter um propósito, pois o ar volta a ser sentido preenchendo o peito, e só então a mente começa a entender que aquele momento que parecia não ter fim acabou.

Algumas vezes a reação posterior é um frenesi, em outros uma exaustão total, e em outros qualquer coisa entre os anteriores. Mas aquele momento excruciante acabou.

Já passei por crises de ansiedade em diversas situações da vida, não diferente de muitos outros. Dirigindo, durante uma reunião de trabalho, no meio da noite, no final do dia, no começo do dia. Inicialmente parece que elas vêm do nada e vão para o nada. E assim continuam parecendo, se não for feita a opção de olhar para o que são. Olhar de frente para o abismo poderia ser uma forma de expressar.

Uma vez, durante uma crise, me disseram para respirar e me acalmar. Depois de tudo passado eu ri da situação. Respirar era justamente o que eu não conseguia fazer! Alguns anos convivendo com isso me trouxeram um certo humor ao recordar as situações nas quais tive crises. E também esses mesmos anos me trouxeram o conhecimento de que toda crise possui um gatilho. Não quer dizer que eliminando todos os gatilhos da vida alguém vá deixar de ter crises. Nossa cérebro é mais esperto do que isso, ele acha as brechas e se embrenha nelas novamente, quando menos se espera. Significa somente que conhecendo seus gatilhos é possível antecipar a chegada da crise, como as sirenes que antecipam a chegada de um míssel. E preparação para enfrentar uma situação é uma grande vantagem para atravessá-la.

Cada um encontra os caminhos que melhor acolhem a si, e depois de um tempo também aprendem quais os caminhos para cada gatilho diferente (sim, os gatilhos podem ser vários, para desespero geral). Mas esses são paliativos. A verdadeira solução só é encontrada quando se vai até o fundo e se entende o problema. Algum ponto da vida está criando gatilhos e disparando os sinais de alerta que exaurem o corpo. A crise de ansiedade é um chamado para resolver um problema, e não um problema. Ela é um sintoma de algo mais profundo para o qual não se quer olhar. E um alerta para o ser de que ele precisa olhar.

Não é fácil nem simples, mas é possível. Os caminhos são os mais diversos possíveis, e dependendo da profundidade e disposição de cada um podem levar anos para se chegar à raiz do que está disparando todas aquelas sirenes na própria cabeça. Mas é possível. E quando se encara de frente a situação e as crises começam a diminuir ou até a desaparecerem é extremamente satisfatório.

Para mim foram alguns anos, e elas nunca deixaram de verdade de aparecer. Somente tornaram-se menos frequentes e mais administráveis. Afinal, as questões vão mudando conforme vivemos e novas situações que não existiam antes emergem e passam a permear nosso ser, e se deixarmos de olhar para elas por tempo suficiente a mente vai encontrar uma forma de chamar a atenção. No meu caso, com crises de ansiedade.

Tento seguir minha própria teoria: olhe para o problema e encare-o de frente. Quando a crise vier, atravesse ela e olhe novamente para o problema. Cada um tem a solução para as suas situações, então cabe a cada um decidir superar.