Assim como com qualquer um, são nas situações críticas da vida que me lembro das motivações de algumas das minhas escolhas. E foi na última mudança que me lembrei da motivação de ter escolhido uma formatação de vida minimalista, formatação essa que esqueci de seguir nos últimos tempos e cujo esquecimento me causou transtornos quando me deparei com a quantidade de coisas que eu tinha para arrumar, embalar e carregar.
Contextualizando, fizemos uma mudança interestadual, então é para ser um pouco mais complexa mesmo, mas não tão absurdamente complexa quanto esta foi. Os parâmetros foram: não levar móveis, não levar eletrodomésticos (até porque a tensão elétrica é diferente entre as cidades e as coisas não funcionariam sem transformadores), minimizar o que já estava esquecido a tanto tempo que só foi visto novamente durante o processo de embalar a vida, não levar o que não teria utilidade nos próximo meses pois ficaremos até o meio do ano hospedados em um local temporário. Simples regras que deveriam facilitar o processo todo, mas que ainda não tenho certeza de que funcionaram.
É fato que todos colaboraram, até as crianças, passando adiante brinquedos que não usavam mais, desapegando de roupas que não serviam ou que estavam encardidas, apesar do apego emocional que sempre existe. Os adultos abriram mão de muitas coisas, muitas mesmo. Mas ainda assim não foi suficiente. No final de tudo enchemos um reboque de dois metros e meio, a caçamba da caminhonete e ainda assim ficaram coisas para trás. Nas últimas horas do arrumar e empacotar eu entrei em desespero e comecei a colocar tudo em sacos e sacolas, enfiar nos cantos do carro, jogar fora ou ignorar o que não conseguia achar lugar para carregar e simplesmente abandonar alguns itens. Quando fui descarregar o carro, ao abrir a porta parecia cena de filme, com sacolas e coisas soltas desmoronando dos bancos. Não quis chorar de novo, já estava calmo e decidido. Sabia que ao nos estabelecermos teria que passar por nova revisão de escolha de vida. Podia não ser imediata, pois não temos ainda tanto espaço, mas assim que o tivermos será imperativo. E esse momento chegará em breve. Até lá, conjecturo.
Mas à parte do que é de todos, fiquei abismado com o que é meu. Me vangloriei durante bastante tempo de ter feito uma mudança interestadual anterior carregando todos os meus itens pessoais em uma mochila de camping, além do violão e uma mochila pequena de miscelânea. E por este feito me sentia um minimalista eterno, como se o feito realizado marcasse o resto dos meus atos de vida. Exceto que não é assim que funciona. Nem de longe é assim que funciona. E para essa mudança atual eu tinha três malas, a mochila, o violão e mais umas tantas sacolas, sem contar os calçados que estavam na caixa junto com os de toda a família. E isso mesmo tendo deixado para trás várias coisas, mas visivelmente não foram o suficiente. Nem de longe foram o suficiente.
Quando cheguei com a mudança e começamos a arrumar a casa, mesmo sabendo o quanto eu tinha trazido, pedi um espaço pequeno do armário para guardar as minhas roupas. E como fui pretensioso ao fazê-lo. Quis repetir o feito de usar somente três prateleiras, como o fazia depois da última mudança minimalista, verdadeiramente minimalista, aquela da mochila, e ignorei o fato de que eu estava ocupando um armário inteiro com roupas antes de sair da última casa. Como foi que consegui ocupar um armário inteiro com roupas!? Só depois que já tinha feito a ginástica de conseguir fazer tudo caber no espaço que solicitei para mim, pois não queria dar o braço a torcer de que eu precisava de mais espaço, foi que cai em mim com o fato de que eu tenho muitas coisas. E mais ainda, que eu deveria ter me dado conta disso antes de fazer a mudança, para não precisar arrumar, embalar e carregar tudo isso. Agora já foi, já tive o trabalho todo. Deixa como está então, certo?
Não vou conseguir. Tentei. Deixei como está nesse mês todo que passou, mas o que acontece é que todos os dias vou pegar roupa e fico frustrado com meu armário. Consegui acertar o resto todo, mas meu armário está uma lástima. Terrivelmente organizado, mas isso por que se não o estiver as roupas não cabem dentro dele. De verdade. E sabe quais as roupas que uso? As mesmas que usava quando fiz a mudança com uma mochila. E por que é que tenho tantas outras? Por vários motivos.
Um deles é que desaprendi a desapegar do que não uso. Por exemplo, tenho duas camisas sociais, que não uso a três anos. Por que motivo ainda as tenho? Tenho um casaco que não uso pois ele é totalmente sintético e fico carregado de estática só de vesti-lo Está no meu armário, mas não o uso.
Outro motivo é que voltei a ter dó de roupas boas que outros descartaram, mesmo que não tenham utilidade para mim. Camiseta gola V novinha, do meu tamanho? Claro, por que não? Mas odeio gola V. E esses outros quatro casacos de boas marcas? Já tenho casacos mais que suficientes, mas claro, por que não!?
E o último é o não me desfazer do que já deu o que tinha que dar. Comprei três camisetas novas para repôr as velhas, aquelas que já estão completamente marcadas e manchadas. E sabe onde estão as velhas? No armário. E continuo usando elas, mesmo ridiculamente marcadas e manchadas. Com isso tenho mais de uma semana de camisetas no armário, mas lavamos roupas a cada no máximo dois dias. Parece estar um pouco incoerente.
Na verdade, tudo isso está muito incoerente. Não sou uma pessoa friorenta, então não preciso de tantos casacos. Não uso o que não gosto, então não devo manter o que não gosto. E por último, não preciso me vestir como um mendigo se tenho roupas melhores.
O resumo é que passei por dias de muito incômodo arrumando, empacotando e carregando muitas coisas as quais não precisaria ter me dado o trabalho de fazê-lo. Perdi a mão, o controle, a ilusão de que estava no controle. Mas é assim mesmo! É só começar de novo, do zero. Ou melhor, do cem, do mil, do cheio, para assim chegar no quase zero, no necessário.