Hiato

Sobre como ter hiatos, mesmo quando não são desejados.

Obviamente, passo por um hiato de publicações. Obviamente. Não tão óbvio assim é o motivo pelo qual isso acontece. Você não faz idéia. O pior de tudo é que nem eu faço idéia. Só sei que acontece e acredito que é por ter que acontecer. Não questiono o fato acontecer, e aprendi a não questionar o motivo de acontecer. Um hiato é um hiato. Se ele não existisse pode ser que faltasse ar para chegar até o final do dia, da semana, do mês, do ano, do próximo minuto. O hiato é necessário, e não aceitar a necessidade da sua existência leva à fila de espera dos terapeutas, holísticos e tradicionais. Aceito o hiato.

Mas, se o hiato é necessário nas publicações, por outro lado nunca escrevi tanto. Não tenho nada para publicar, mas tenho calos nos dedos onde o lápis se apóia e a pele da mão, onde ela corre sobre o papel enquanto escrevo, está diferente, pois não chega a ser calosa, mas não está igual a da outra mão, definitivamente. E isso porque escrevi. Não digitei, escrevi. Lápis e papel. Lápis mesmo, não lapiseira, nem caneta. Escrevi sobre como adoro lápis e papel, mas não acho que é uma paixão que já virou um texto publicado. É só uma paixão, guardada para mim mesmo. Tenho meus cadernos e meus lápis, e eles foram usados em quantidade significativa durante esse hiato. Nada publicável. Mas todo exercício conta, ouvi dizer.

Ainda não tenho plena certeza de que o hiato acabou. Se publicar esse texto, significa que ele acabou? Ou seria só um ato de misericórdia frente à minha própria frustração de não publicar?

Não, escrevi ali atrás que aceitei o hiato, então não existe frustração.

Cale-se! Há frustração, é inegável! Não minta!

Minto!

Não!

Chega.

Existe frustração. E existe hiato. E os dois são necessários. Fico frustrado e vivo o hiato. E escrevo, mesmo sem publicar. E continuo frustrado e sem sair do hiato, mesmo escrevendo. Ou saí do hiato, mesmo frustrado. Mesmo escrevendo.