Fuga da galinha

Mais uma vez vou escrever sobre galinhas. Sinto que não será a última. Sinto no sentido de sinto muito, não no de achar que algo será de alguma forma. Assim sendo, sinto muito mas não será a última vez que vou escrever sobre galinhas. Também não é a última vez que vou dar voltas para falar algo que poderia ser escrito em muito menos do que uma linha, mas é que de vez em quando gosto de complicar o que é simples. Assim sendo, sinto muito por isso também. Mas não sinto de verdade, é só para justificar-me, pois não vou deixar de fazer.

Então vou escrever sobre galinhas. Especificamente uma aventura que uma delas viveu. Sabe aquela que é coxa, que mencionei lá da primeira vez que falei sobre galinhas? Então, ela sumiu um dia desses, bem no meio da tarde. A esposa ficou desacorçoada. Minha filha andava pelo quintal chamando a galinha, mas de tempos em tempos esquecia que estava procurando a galinha e procurava flores, voltando para dentro de casa sem galinha, mas com um pequeno buquê. E a galinha? Ué papai, as galinhas ficam lá fora! Bem abalada assim. Meu filho não percebeu nada, pois estava dormindo com otite. Só ficou sabendo de tudo no dia seguinte.

A galinha sumiu, do meio para o final da tarde, que é quando elas vão sozinhas para dentro do galinheiro e se aninham para dormir. Ela não apareceu para a cerimônia, o que significa que deveria ter se arranjado por algum outro canto, caso ainda estivesse viva. Minha esposa teve uma aula e saiu de casa durante algum tempo. Quando escureceu perguntou por mensagem se a bendita galinhas já tinha aparecido e se eu achava que ela estava viva. Não digo que sim nem que não, respondi, só digo que ela não está aqui agora, mas pode ser que amanhã apareça! Ela ficou triste e me mandou um desenho de coração quebrado. Terminei de lavar a louça e de dar jantar para as crianças. Não tinha o que fazer, o passarinho não estava no quintal e eu não conseguiria ir atrás e deixar as crianças em casa com fome no final do dia. O passarinho teria que esperar.

A esposa chegou, a rotina seguiu. Depois de tudo pronto, naquela hora em que nos sentamos para conversar no final do dia, alguém grita no portão “Vizinha! Entrega!”. Entrega? Mas não tinha nada chegando hoje, será que era algo que estava na casa dela desde outro dia? Saí para atender a vizinha. Ela estava segurando algo que parecia um embrulho visto na penumbra da noite, que só consegui distinguir o que era depois que ela perguntou “essa galinhazinha é de vocês?”. A galinhazinha era nossa.

Agradeci e expliquei que estava sumida desde o final da tarde, mas não achávamos ela em lugar algum, então decidimos esperar até o dia seguinte. Cheguei em casa e ela estava dormindo em cima da minha mesa na garagem, disse a vizinha, que gentilmente coletou a galinha coxa (e que de vez em quando é fedida) e veio nos chamar para fazer o tira teima. Enquanto a troca acontecia, o cachorro dela viu um dos nossos gatos e entrou correndo pelo quintal. O gato foi mais rápido e fugiu para o terreno do lado, mas o cachorro não deixou de marcar território e fazer xixi em uma das árvores.

Colocamos a galinha dentro do galinheiro e o gato apareceu de volta. Como se nada tivesse acontecido, a galinha foi empoleirar-se com as outras e ter uma boa noite de descanso depois da incursão no vizinho. Não sabemos ainda como ela pulou para lá, visto que o muro é algo e ela tem as penas de uma das asas podadas justamente para não voarem alto, fica então o mistério. Chegamos a conclusão de que damos muito trabalho para os vizinhos, mesmo sendo um só.