Escolhendo batalhas

A arte de escolher as batalhas não é tão simples quanto parece. Ela prega que se deve escolher aquelas batalhas as quais vale a pena envolver-se, visto que sempre que nos envolvemos em algo nos sujamos, pelo menos um pouco. Mas o que acontece é que as pessoas usam esse jargão como uma desculpa para não envolverem-se nas batalhas em lugar de envolverem-se com consciência.

Ao invés de brigar pela vaga de estacionamento, lute por um mundo de mais comunicação.

Ao invés de comprar todo o papel higiênico durante uma pandemia, pense em como você pode compartilhar o que tem a mais ou ajudar quem não consegue ter o básico necessário, dividindo o seu papel higiênico.

Ao invés de gritar com seus filhos quando fazem algo errado, sente-se com eles e entenda o que aconteceu. Eles não vão entender o erro pelo seu grito, mas sim pela sua empatia, pelo seu exemplo.

Poderia listar muitos ao invés, mas seria um texto de ao inveses e não é essa a ideia. A ideia é mostrar que a frase que parece ser um passe livre para não envolver-se no que é complicado, em verdade é um convite para tal. É um convite para envolver-se nas batalhas difíceis, nas batalhas complexas, naquelas que tiram da zona de conforto, naquelas que valem a pena. Esse é o principal ponto, entender quando uma batalha vale a pena.

Mas quando é que ela vale a pena? Definitivamente não é quando outra pessoa o diz, pois não são os outros que escolhem por nós, mas nós mesmos. Então não é quando a decisão vem pronta que é necessariamente quando vale a pena. Então quando é que vale a pena?

Cada um sabe, ou pelo menos deveria saber, quais são seu valores, quais os temas mais importantes da vida. Para cada um isso será um pouquinho diferente, aproximando-se mais quando as pessoas fazem parte de um mesmo círculo social e afastando-se mais quanto mais distantes estão esses convívios. Então o que é que vale a pena? É aquilo que escolhemos valorizar. Se um dos nossos valores é paz, tranquilidade, bom relacionamento ou qualquer outra forma de elencar esse mesmo tema, brigar pela vaga de estacionamento não vai resolver. Não quer dizer que vá ceder cegamente, mas caso veja que a outra pessoa não tem o mínimo de racionalidade para entender o que está acontecendo, siga seu caminho e encontre outra. E pronto, o problema acabou aí, nem chegou a ser um problema. Em uma pequena ação a batalha foi descartada e agiu-se alinhado com o valor proposto. Se quero paz, promovo a paz. Não só pelo Instagram, mas pelos meus atos. Não são os outros que vão promover a paz por mim, mas eu mesmo.

E assim vale para todos os valores que se tem. Não percebemos se não dedicarmos um tempo para entender como cada um dos nossos valores influenciam nossas ações, se quando formulamos uma lista de valores não pensamos profundamente em cada um deles. São nosso mapa moral, nosso guia para escolher as batalhas certas. Assim sendo, não deveriam ser escolhidos levianamente, mas sim com muita cautela. E revisados, pois alguns daqueles valores que não formam a base de quem somos, aqueles valores mais superficiais, podem mudar com o tempo. Pode-se valorizar o amplo contato social por meios digitais quando se é mais jovem e depois de algum tempo isso deixar de ser um valor, uma vontade. A necessidade de fazer o maior número de contatos possível pode mudar, por exemplo, quando se tem filhos e se quer dedicar mais tempo à eles do que aos amigos. É natural que alguns valores mudem no decorrer da vida, mas normalmente são os valores mais superficiais. Aqueles que sustentam a moralidade e a ética individual tendem a não mudar.

Assim sendo, escolher suas batalhas tem um significado inesperadamente mais profundo. Puxa a necessidade de conhecer seus próprios valores para então agir em alinhamento com eles em todas as situações da vida, sejam elas de conflito ou não. Escolher as batalhas significar agir dentro do que se acredita, não fugir daquelas situações em que não se irá ter sucesso. Não é o sucesso que vai determinar a escolha, mas sim os valores que nos movem. E é daí que vem o sucesso, agir em direção ao que se acredita.

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