Mudei-me algumas vezes na vida. Com meus pais, sozinho, com amigos, com minha companheira e depois esposa, com ela e meu filho. As primeiras foram fáceis, simples. Com o tempo a quantidade de coisas que eu tinha começou a ficar tão grande que elas passaram a ser muito complexas, e só de pensar em mudar já começava a sentir estafa pelo trabalho que teria. Com 24 anos de idade eu já arrastava comigo muito mais do que eu conseguia carregar.
Depois de algumas mudanças, em nossa última casa, chegamos à um ponto em que começamos a esconder as coisas dentro de armários para não precisarmos lidar com elas. E quando abríamos os armários fazíamos de conta que não víamos a quantidade de coisas que lá estavam esperando para que lidássemos com elas.
Em nossa última mudança precisamos contratar um caminhão para transportar tudo, e estávamos muito incomodados com isso. Então nos demos conta de um ponto crucial: mudaríamos de estado e a tensão da rede elétrica seria diferente. De uma vez fomos obrigados a nos desfazer de praticamente tudo que funcionava ligado na tomada. Aproveitando este embalo, começamos a reavaliar a necessidade de levar os móveis, até chegarmos à seguinte regra: só vale o realmente gostamos e usamos. Não vale só gostar, temos também que usar.
Algumas coisas foram vendidas, mas a maioria foi doada para uma colega que estava mudando-se para começar vida nova e precisava montar sua casa. Montamos a casa para ela com os móveis que não iríamos levar, e ainda assim sobrou muito para ser transportado em nossa própria mudança.
Enxergar isso nos trouxe o questionamento de por que temos tanto? Para que? Com tudo que tínhamos ajudamos uma pessoa a montar a própria casa e ainda sobrou para montarmos a nossa casa! E quando olhamos para os lados e comparamos com o que vemos em outros lugares, nem tínhamos tanto assim, mas já era um absurdo.
Passamos a ser muito mais intencionais com o que trazemos para casa. Se não é algo que precisamos, não passa do portão. Não queremos mais a casa super mobiliada, queremos o espaço para que nossos filhos possam brincar e nós possamos nos expressar. É um luxo que não é um luxo. Não precisamos gastar a mais para isso, precisamos gastar a menos!
Meu pai uma vez me disse “só leve o que você consegue carregar”. É difícil de fazer isso quando estamos de mudança de casa, um desperdício abandonar itens caros somente para comprá-los novamente. Mas o quanto é possível chegar perto desse objetivo? Fiz uma redução drástica de meus pertences pessoais. Estes sim consigo carregá-los todos. Mas o que fazer com o resto todo? Qual é a referência? O que cabe no porta malas do carro? Uma caminhonete? E quando temos família, como fica? É a soma individual?
Continuo sem saber, mas entendi algo ainda mais importante. Ter somente aquilo que me traz alguma satisfação e que tem uso. O restante não é necessário.